domingo, 11 de novembro de 2018

EM BUSCA DA EXTINTA COMUNIDADE JUDAICA DE CAMETÁ


Nos últimos anos vários pesquisadores tem se dedicado ao estudo das comunidades judaicas na Amazônia nos seus mais variados aspectos. Aspectos econômicos e sociais, junto a relatos de memórias, da inserção das comunidades judaicas na realidade amazônica são de grande valia, não só para a história destas comunidades, como também, para ajudar a construir uma nova história da Amazônia como um todo. Quase sempre quando pesquisadores referem-se à Amazônia são ressaltados os povos da florestas, ribeirinhos, mas quase nuca são citados os grupos judaicos que encontram-se radicados a quase dois séculos na região norte, demarcando de uma forma ou de outra seu território identitário, ainda ressaltando que, dois séculos de imigração é algo muito significativo para um país que tem apenas quinhentos anos.

Para Wagner Bentes Lins: Antropólogo, mestre no Curso de Hebraico Cultura e Literatura Judaica da Universidade de São Paulo – USP, a presença judaica em Cametá, Santarém e Óbidos, foram prósperas, principalmente no inicio do século vinte, possuíram comunidades judaicas expressivas, e que mesmo atualmente encontrando-se totalmente esvaziadas, deixaram suas marcas impressas em diversos aspectos da memória e da história deste Estado, e que ainda precisam ser estudadas com devida consideração.

No começo desse ano o professor Pedro Chaves incorporou em um grupo judaico acadêmico de estudo sobre o levantamento das famílias que descendem de judeus. Cametá foi uma das primeiras cidades da Amazônia a receber judeus, antes mesmo do ciclo da borracha já se podia notar a presença judaica de várias formas na cidade. Inicialmente jovens solteiros que viriam administrar barracões de coletas de produtos da floresta, depois famílias judaicas que paulatinamente chegaram na cidade, muitas fugindo dos surtos de febre amarela que eram muito comuns na capital. Um dos principais produtos da exportação cametaense era o cacau, que logo foi ultrapassado pelas produções bahianas e inglesas nas colônias do Caribe.


Embora hoje a cidade apresente-se decadente economicamente, Cametá oferecia um modelo de cidade emergente para a época, com coretos importados da França e Inglaterra, iluminação pública que adornavam a praça da matriz  já no ano de 1906, até hoje é possível ver os portes de ferro na praça da vila de Juaba. Os judeus logo se integraram à elite local, que era formada por portugueses, espanhóis, franceses e libaneses, que ocupavam as primeiras ruas da cidade com seus comércios e residências.

Segundo o pesquisador Wagner Bentes Lins, após a crise da borracha, na primeira década do século vinte, as inúmeras famílias judias que viviam nas cidades e vilas ao longo dos principais rios da Amazônia, paulatinamente começam a imigrar para as capitais Belém e Manaus. Muitas destas famílias prosperaram após anos comercializando produtos regionais, como fazia a maioria da elite constituída na época. Mas, com o esgotamento destes recursos e a desvalorização dos mesmos no mercado internacional, o interior da Amazônia  tornou-se um lugar vazio de oportunidades, impulsionando desta forma os judeus que residiam no interior a engrossarem as comunidades já constituídas nas capitais.

Mesmo os judeus com menos recursos, também deixaram as cidades interioranas, e na maioria das vezes valendo-se das redes de ajuda mútua, sempre existentes dentre os judeus ao longo de anos de diáspora, procuravam se estabelecer  nas capitais para iniciar um novo passo na história da imigração judaica na Amazônia, caso percebido em pesquisa de campo de Chaves, as famílias Cohen no Rio Guajará, distrito de Porto Grande e os primeiros moradores da vila do Carmo do Tocantins, a família Laredo.

No inicio dos anos cinquenta do século passado, as comunidades interioranas estavam totalmente esvaziadas, as gerações que se constituiriam na capital já não teriam uma característica comercial extrativista, a maioria dos componente das gerações nascidas ou imigrada para as capitais enveredou por outro tipo de comércio ou tornaram-se profissionais liberais. Com Cametá não foi diferente, mais de um século de inserção judaica foi deixado para trás em prol de um novo modelo de vida na capital, mas mesmo atualmente havendo apenas resquícios da cultura judaica na cidade, se faz importante a realização destes estudos.

Cametá além de Belém foi a única cidade do Pará que teve uma sinagoga pública. Geralmente no interior do Estado as reuniões para orações e festas ocorriam nas casas dos membros da comunidade, que faziam as vezes de sinagoga, caracterizando o judaísmo na Amazônia como um judaísmo domiciliar. Em Cametá uma casa antiga de arquitetura colonial portuguesa abrigava a sinagoga, que localizava-se na primeira rua, que foi tragada pelas águas do rio Tocantins.  Não conseguimos descobrir maiores detalhes sobre o interior do local, porém diferente dos outros municípios que possuíam colônias judaicas, Cametá possuía um prédio específico para os serviços religiosos, não fazendo uso dos lares dos correligionários para as reuniões da comunidade.

O pesquisador Wagner Bentes Lins, contabilizou em sua pesquisa cerca de 30 famílias judaicas habitaram a cidade de Cametá, os registros dessas famílias foram coletados através da relação das lápides do antigo cemitério judaico, que há muito foi desativado. Mas não somente o cemitério prevalece como a marca da presença judaica por quase um século naquela cidade. Quando fui pesquisar em Cametá, tinha certeza que não encontraria judeus de fato, mas para mim como antropólogo ver como vivem os descendentes dos judeus que passaram por Cametá, quais as representações que estes fazem do judaísmo e da cultura judaica tornou-se então  o principal motivo desta pesquisa.

Mesmo estes descendentes, na sua grande maioria filhos de pais judeus com mães locais, não sejam considerados judeus aos olhos da comunidade de Belém, e realmente não o são, a comunidade local continua a enxergá-los como judeus, todos que sabiam qual o motivo da minha pesquisa imediatamente faziam referências aos descendentes dos quais eu coletei os depoimentos para análise. Mesmo estes cidadãos tendo pouca, ou quase nenhuma vivência judaica, notamos pelos depoimentos coletados que o judaísmo não se apagou por total da vida destas pessoas, não somente pelo fato da população local classificá-los de judeus, mas de uma forma ou de outra o judaísmo ou uma ligação com o mesmo sempre se manifestava.

O Pesquisador da USP chegando em Cametá em busca de sua pesquisa procurou Alberto Mocbel, filho de libaneses, dono de um dos cartórios da cidade, é um auto didata, compositor, poeta, referência intelectual na cidade. Ele contou-me a respeito do senhor Abraão Ben- Simon, pai dos jovens Moysés e Jacob, referiu-se a ele como sendo o “Rabino” da comunidade, mas na verdade o posto ocupado pelo senhor Abraão era de shaliach, fez referências também as filhas não reconhecidas do senhor Maurício Elarrat. As três filhas, Saphira, Esmeralda e Sol, não receberam o sobrenome do pai, mas foram registradas com nomes muito característicos das comunidades judaicas que se estabeleceram na Amazônia.

Após anotar os comentários do senhor Mocbel, parti em direção ao cartório Cohén, isso mesmo, grafado com acento agudo na vogal e. Além da alteração do sobrenome, quando entrei no cartório deparei-me com as seguintes inscrições na parede:   Esther Cohén Braga, Tabeliã Vitalícia. Acima das inscrições estava dependurado um enorme crucifixo, e em cima de um antigo arquivo cartorial, uma profusão de santos, inclusive São Benedito, que pode ser considerada a figura mais popular na cidade de Cametá.

Segundo os depoimentos do senhor Mocbel, a família Cohén há muito abandonou as práticas judaicas, creio que cerca de quatro gerações.

Já com o Dr. Isaac Azancot é a maior percepção destes resquícios de judaísmo, que mesmo após anos de afastamento ainda teimosamente perduram de uma maneira da ideia judaica. Este informante é neto de um judeu marroquino que casou-se com uma pernambucana, já o pai de Isaac nasceu em Baião, dos filhos desta união nenhum casou-se com judeu ou descendentes, mas assim como na família Cohen, filhos e netos permanecem recebendo nomes judeus como se aquilo que não pode ser continuado pela religião tivesse continuidade nos nomes dos descendentes.
Mesmo o pai de Dr. Isaac sendo filho de uma cristã, e sua esposa igualmente não era  judia, os filhos cresceram entre as duas práticas religiosas, freqüentavam os serviços cristãos, mas algumas cerimônias judaicas sempre foram mantidas, o Yon Kipur é a cerimônia mais recorrente dentre estas pessoas que foram se afastando do judaísmo, e também pode ser observada nos depoimentos do Dr. Azancot.

Mesmo batizado e crismado, o Dr. Isaac Azancot relatou-me que no dia de Yon Kipur, todas as suas atividades são suspensas, tal como acontecia quando o pai era vivo. Não se acende fogo, tão pouco luz elétrica, no final do dia o jejum é rompido com a ingestão de um cafezinho e uma canja onde um galo é sacrificado para o pai, uma galinha para mãe e para cada filho um frango ou uma franga, conforme o sexo. Para cada animal duas gemas são cozidas e este caldo será servido após o jejum. Se estas práticas são ou não cumpridas pelo informante, o importante neste caso são na verdade os relatos e as representações feitas a respeito desta cerimônia.

As freijuelas que a tia de Dr. Isaac fazia para a festa de Kipur, assim como as orações paulatinamente foram esquecidas pelo tempo e aos poucos vão se perdendo com o progressivo afastamento do judaísmo. No entanto o filho de quatro anos de Dr. Isaac recebeu o nome do bisavô, Isaac Abrão, como que numa tentativa teimosa que este passado não se perca de uma vez por todas.

Para Wagner, os depoimentos da família Azancot foram de extrema valia, pois após o desmanche da comunidade o avô e o pai de Dr. Isaac ficaram responsáveis pelo cemitério judaico, que curiosamente é capinado e pintado todos os anos para receber as visitas do dia de finados no dia dois de novembro.

Seu Menassé da Silva Sá na época visitava o cemitério no dia dos mortos, acendia velas para o avô, Leão Pinto da Silva, que segundo seu Menassé veio da “Judéia”, na mentalidade do mecânico de embarcações se o avô de costumes tão peculiares era judeu era porque tinha vindo da Judéia caminhando até chegar a cidade de Cametá! Quando fiz o levantamento da genealogia do senhor Leão Pinto da Silva deparei-me com um fato curioso: dos filhos do senhor Leão com uma mulher local, todos os homens receberam nomes muito característicos dos judeus marroquinos, como Moyses, Menahen e Mimon,  já as filhas recebiam nomes de santas, como Bendita em homenagem ao santo padroeiro de Cametá. O mesmo acordo permaneceu entre o pai do Sr. Menassé e sua mãe, que obviamente era cristã, os filhos todos receberam nomes judeus e as filhas nomes de santas, as irmãs do senhor Menassé, homenageiam São Bendito e Nossa Senhora de Nazaré.
O senhor Cohen era proprietário da “Casa Popular” que funcionava na rua São João Batista, em um sobrado, que foi recentemente demolido dando lugar a uma casa de festas. No prédio além de comércio atacadista eram comercializadas produtos da floresta como o látex que era trocado por víveres pelos ribeirinhos. Os coletores em acordo com o senhor Isaac quando vinham para a cidade em dia de Sábado, sabendo da impossibilidade de comercializar deixavam a mercadoria em um anexo da loja que foi construído justamente para esta função, passado o descanso sabático o senhor Isaac remunerava o seringueiro.

As pessoas da comunidade de Belém que de uma forma ou de outra tem o seu passado ligado a extinta comunidade de Cametá, e que puderem contribuir para o enriquecimento deste trabalho, principalmente no que se refere as descrições da extinta sinagoga, favor entrar em contato com a edição deste periódico. Com certeza estas informações serão de grande valia não só para a história do judaísmo como também para a história da Amazônia.
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